Em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, litoral do Rio de Janeiro, uma equipe de pesquisadores realiza mergulhos para contar e identificar espécies de peixes em um dos ambientes marinhos mais bem preservados do país. Esse processo, descrito pelos cientistas como um verdadeiro censo submarino, também é realizado em regiões vizinhas, como Cabo Frio e Búzios, em intervalos semestrais, enquanto em Angra dos Reis, na Costa Verde, ocorre anualmente.
Durante os mergulhos, que atingem profundidades entre sete e oito metros, os especialistas utilizam equipamentos que delimitam uma faixa de vinte metros para registrar a quantidade e a variedade de peixes, com o auxílio de instrumentos e uma tabela de cores destinada à observação da coloração dos corais, um importante indicativo do estado de saúde desses organismos. Não raramente, tartarugas marinhas acompanham a atividade dos mergulhadores.
Essas ações são parte do Projeto Costão Rochoso, desenvolvido pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento em parceria com a Petrobras. A iniciativa conta com o apoio de pesquisadores da Universidade Federal Fluminense desde 2017, tendo iniciado suas atividades na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, uma área reconhecida pela grande diversidade biológica.
O costão rochoso é caracterizado pela presença de rochas e paredões, muitos deles submersos, encontrados tanto em grandes formações quanto em pedras que emergem nas extremidades das praias e têm partes cobertas por vegetação. Exemplos notáveis desse ecossistema incluem a Pedra do Arpoador e o Pão de Açúcar, ambos no Rio de Janeiro.
Nesse ambiente, a conexão entre o oceano e o continente proporciona abrigo e oferta abundante de alimento a diversas formas de vida, incluindo organismos marinhos, aves e seres que habitam a zona denominada entremarés – área alternadamente submersa e exposta pela variação das marés. Entre os habitantes das entremarés destacam-se cracas, mexilhões, diferentes espécies de algas e caranguejos.
No litoral do Rio Grande do Sul ao Espírito Santo, os costões rochosos são mais predominantes, embora fragmentos desse tipo de ecossistema possam ser encontrados em certas áreas da região Nordeste do país.
A bióloga Juliana Fonseca, cofundadora do projeto, aponta que a elevada biodiversidade local se deve, principalmente, à posição geográfica de Arraial do Cabo, onde conflui a divisão entre águas frias vindas do sul do Atlântico e águas quentes oriundas do Nordeste.
"A gente tem pelo menos 200 espécies de peixes. Todas as cinco espécies de tartarugas marinhas que ocorrem no Brasil passam aqui um tempo. Além disso, a gente tem diversas espécies de aves, de algas, uma infinidade", descreve ela.
Além desse cenário característico, o biólogo e mergulhador Marcos de Lucena observa que a variedade de espécies em Arraial do Cabo supera as encontradas até mesmo em Fernando de Noronha, no litoral de Pernambuco, e cita registros de espécies também presentes no Caribe.
Os costões rochosos funcionam como viveiros naturais, abrigando uma expressiva quantidade de peixes jovens que se concentram próximos às pedras. A Agência Brasil acompanhou o levantamento marinho em Pedra Vermelha, um local restrito à pesquisa científica, sem a presença de turismo, onde só é permitido o mergulho de pesquisadores licenciados.
A autorização para o chamado mergulho científico, devido à condição de reserva extrativista federal da área, é concedida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.
O monitoramento identifica, além de peixes, organismos como corais, polvos e lulas. O coordenador-geral do projeto, biólogo marinho Moysés Cavichioli Barbosa, destaca a ocorrência de animais em risco de extinção.
"Em termos de animais ameaçados, a gente tem muita garoupa, mero, badejo, budiões, raias e tartarugas. Dentro das espécies que a gente trabalha, deve ter pelo menos umas 15 espécies com algum tipo de nível de ameaça. Tem espécies que só ocorrem aqui no Brasil", afirma.
Barbosa ressalta a importância do diálogo mantido com órgãos como o ICMBio, responsável pelo ordenamento de atividades ligadas ao turismo e à pesca. O projeto contribui com informações detalhadas sobre distâncias seguras para o turismo náutico, limites de ruído de embarcações e até parâmetros para moratórias de pesca, como no caso do budião, uma espécie cujos indivíduos nascem todos fêmeas e, após um período, um deles se transforma em macho.
"Tem algumas espécies que o ideal mesmo é ter uma moratória, por exemplo, não pode pescar por dois anos", exemplifica o pesquisador.
"Depois de um tempo, um deles faz a reversão sexual e vira macho. Normalmente o maior. E aí vem o pescador e puf! Mata o maior que tem. Então, naquele ano, aquela reprodução já ficou comprometida", relata Barbosa.
O projeto investiga ainda a distância mínima que um mergulhador pode alcançar de uma tartaruga marinha sem provocar sua fuga. Todas essas evidências científicas compõem o suporte para decisões de gestão ambiental.
A iniciativa também abrange a avaliação de como algas, mexilhões e outros organismos das entremarés reagem a alterações extremas de temperatura, como as registradas durante ondas de calor. Segundo a bióloga marinha Isis Viana, que monitora essas áreas, a variação térmica vem se tornando cada vez mais frequente.
"Tem dias que a temperatura sobe muito, tem dias que baixa muito. Isso afeta essas formas de vida e podem não resistir ao calor", afirma.
"A gente chama esses momentos de extremos de calor. São anormais e acontecem com mais frequência por causa das mudanças climáticas, não tem organismos que sobrevivam", destaca. Sensores instalados nas rochas e boias oceanográficas medem a temperatura da água de forma ininterrupta, 24 horas por dia.
Um dos objetivos do projeto é levantar dados que permitam calcular com precisão qual porcentagem do litoral brasileiro é composta pelo ecossistema de costão rochoso.
Nas reservas extrativistas, a legislação exige que o uso dos recursos naturais seja pautado pela sustentabilidade, garantindo a continuidade dos meios de subsistência de comunidades tradicionais. Pescadores locais têm permissão para exercer sua atividade, seja para consumo próprio ou para fins comerciais, enquanto a pesca industrial é expressamente proibida.
O agente de gestão socioambiental do ICMBio, Weslley Almeida, ressalta que a parceria com o Projeto Costão Rochoso fornece o embasamento científico necessário para o ordenamento e a preservação dos recursos naturais, de modo a assegurar a existência dessas riquezas para as futuras gerações dos pescadores artesanais.
José Antônio Freitas Batista, que atua como pescador há 49 anos na região, afirma que a atividade pesqueira é fundamental para Arraial do Cabo, desempenhando papel essencial na economia local. Segundo ele, a criação da reserva extrativista foi vital para manter o equilíbrio entre pesca e turismo, permitindo que a segunda atividade surgisse como uma fonte complementar de renda, evitando a sobreexploração dos peixes.
Batista observa que a pesca movimenta uma série de outros setores econômicos, como fábricas de gelo, oficinas de manutenção de embarcações, mecânicos, produtores de redes, anzóis, tarrafas e estabelecimentos comerciais, formando uma cadeia produtiva dependente da atividade pesqueira.
O projeto também prioriza ações educativas voltadas para a comunidade, promovendo encontros em escolas e capacitações de pescadores e seus familiares. O cientista do mar Yago Ferreira ressalta a necessidade de aproximar o conhecimento científico da população local para promover uma mentalidade mais harmônica em relação ao ambiente marinho.
"A gente não consegue conhecer o que não entende e não entende o que está longe", afirma Ferreira.
Para o coordenador Moysés Barbosa, a inclusão da sociedade nas ações de conservação ambiental é mais eficaz do que a divulgação de trabalhos acadêmicos restritos a publicações especializadas ou aos órgãos de gestão em Brasília.
"Isso é muito mais eficaz do que qualquer conhecimento acadêmico que sai apenas em artigo ou que vai apenas lá para Brasília, para um gestor. Trabalhar com a sociedade é muito mais eficiente", justifica Barbosa.
A prefeitura de Arraial do Cabo informou que desenvolve estudos técnicos para estipular limites ao número de visitantes em praias e pontos turísticos, buscando evitar a sobrecarga ambiental e aprimorar a experiência dos turistas. Além disso, atua em conjunto com o ICMBio na fiscalização e no êxito das políticas públicas da reserva extrativista marinha.
O Projeto Costão Rochoso deu início à cooperação com a Petrobras em 2023, integrando o programa socioambiental da empresa. Em 2026, a parceria foi renovada por mais quatro anos, com um investimento de seis milhões de reais para o novo ciclo, sujeito à avaliação periódica de resultados para continuidade.
Conforme explica Ana Marcela Bergamasco, gerente de projetos de responsabilidade social da Petrobras, as parcerias firmadas pela companhia buscam conciliar interesses ambientais e sociais, promovendo um turismo de base comunitária e incentivando práticas pesqueiras sustentáveis, superando a visão de que conservação ambiental é incompatível com atividades econômicas.
"Tem que trabalhar com a questão social, turismo de base comunitária, com a comunidade e a pesca, mas de uma maneira sustentável, tirando uma visão de que a conservação estaria competindo com alguma atividade econômica", comenta Bergamasco.
"Na verdade, para a população, elas podem andar juntas e uma contribuir com a outra", complementa.
O projeto mantém o compromisso de aliar conhecimento científico à promoção de práticas sustentáveis e de fortalecer o vínculo entre conservação ambiental, comunidades tradicionais e desenvolvimento econômico regional.