A cena musical de Brasília ganha um marco com o lançamento, nesta quinta-feira (23), Dia Nacional do Choro, do single “O pulo do sapo” pela Orquestra Pizindim. Composta por Leonardo Benon, o Léo Benon, cavaquinista do grupo, a faixa é uma homenagem a Evandro Barcellos, figura fundamental na criação do Clube do Choro na capital federal em 1977, falecido em 2016.
Disponível em diversas plataformas digitais de áudio, “O pulo do sapo” é a primeira canção revelada do álbum de estreia da Orquestra Pizindim. O conjunto é composto por treze músicos permanentes, que dominam instrumentos de sopro, cordas e percussão, e se estabeleceu como a primeira orquestra dedicada ao choro em Brasília, seguindo os passos históricos de nomes como Evandro Barcellos.
As músicas deste novo trabalho, incluindo “O pulo do sapo” e outras faixas do disco, serão apresentadas ao vivo na Escola de Música de Brasília, no Teatro Levino de Alcântara. O evento de pré-lançamento está marcado para amanhã, sexta-feira (24), às 20h. Esta será a oportunidade inicial para o público conhecer parte do repertório, uma vez que o álbum ainda está em fase de finalização e não tem data definida para o lançamento oficial.
Os integrantes da Pizindim se uniram pela primeira vez há três anos, em uma celebração do Dia Nacional do Choro. Esta data, que agora é comemorada com o lançamento do single, foi oficialmente instituída no ano de 2000. A iniciativa para sua oficialização partiu do bandolinista Hamilton de Holanda, durante o período em que residia em Brasília.
O álbum da Orquestra Pizindim carrega em seu cerne uma rica tapeçaria da história do choro, evidenciada já em seu nome. “Pizindim” é um apelido de infância de Alfredo da Rocha Vianna Filho, mais conhecido como Pixinguinha (1897-1973), instrumentista, compositor e maestro que se tornou um dos maiores ícones da música brasileira.
A Orquestra Pizindim dedica-se a explorar uma faceta menos conhecida do legado de Pixinguinha: sua contribuição como arranjador. Este trabalho, realizado entre o final dos anos 1920 e a década de 1950, ainda é pouco reconhecido pelo público geral.
“Acho que só quem é do universo do choro é que sabe de fato quem é Pixinguinha e qual é a sua importância. A maioria das pessoas o conhece apenas como o compositor de ‘Carinhoso’”, diz Bruno Patrício, saxofonista, diretor musical da Orquestra Pizindim e produtor executivo do álbum no prelo.
O álbum da Orquestra Pizindim já conta com três faixas gravadas que destacam os arranjos de Pixinguinha, lançando uma nova perspectiva sonora sobre essas obras. Duas dessas gravações são a valsa “Só tu não sentes” e a marchinha “Tenho um desejo”, ambas compostas por um pianista carioca conhecido como J. F. Fonseca Costa, ou simplesmente “Costinha”.
Costinha foi contemporâneo de Ernesto Nazareth (1863–1934) e trabalhava na Estrada de Ferro Central do Brasil, uma importante via que conectava Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais à época. A ferrovia era um polo de encontro e trabalho para muitos chorões, incluindo nomes como o violonista Satyro Bilhar (1848-1926) e os compositores Cândido das Neves (1899-1934) e Juca Kalut (1857-1822).
As partituras com os arranjos que Pixinguinha criou para essas duas composições datam de 1957, e estão preservadas no acervo do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro. Bruno Patrício ressalta a relevância dessas descobertas, afirmando que “são dois arranjos inéditos para músicas, praticamente, inéditas”, considerando as poucas e hoje esquecidas gravações existentes.
Outra peça musical que ganhou um novo olhar com a maestria de Pixinguinha como arranjador e que foi redescoberta pela Orquestra Pizindim é a polca "Alfredinho no Choro". Gravada originalmente em 1910, a canção recebeu um novo arranjo de Pixinguinha em 1949. A autoria é de Alfredinho Flautim, nome artístico de Alfredo José Rodrigues (1894-1958).
Duas composições do próprio Pixinguinha também integram o repertório do álbum da Pizindim. Uma delas é o maxixe “Dando topada”, que fez parte da trilha sonora do primeiro filme de ficção produzido no Pará, “Um dia qualquer”, dirigido por Líbero Luxardo em 1965.
O título da música, “Dando topada”, provavelmente se refere às interrupções abruptas em sua execução, conforme explica Bruno Patrício. Ele descreve que “sempre tem uma topada ali para todos os instrumentos”, indicando as pausas marcantes.
A outra obra de Pixinguinha presente no álbum e no show da Orquestra Pizindim é o choro “Carinhoso”. Considerada uma das músicas mais regravadas no Brasil, sua trajetória até o sucesso foi complexa. Composta em 1917, só foi gravada em disco em 1928 e, inicialmente, enfrentou críticas por uma suposta influência do jazz. O reconhecimento veio por acaso em 1937, quando Orlando Silva, o “cantor das multidões”, a gravou. Isso aconteceu um ano após João de Barro, o Braguinha, escrever a letra para que a canção fosse incluída no espetáculo “Parada das Maravilhas”.
Diante da vasta e variada história de “Carinhoso”, Bruno Patrício optou por criar um arranjo que combinasse elementos de diferentes versões da canção. Ele relata que “fui pescando o que eu achava de mais representativo” para compor a nova interpretação.
Além de resgatar e valorizar o cancioneiro brasileiro, a Orquestra Pizindim também demonstra a vitalidade contemporânea do choro com composições de seus próprios integrantes. Exemplos incluem o já mencionado “O pulo do sapo”, de Léo Benon, e as faixas “Salve João da Baiana” e “Maxixe Pizindim”, ambas de autoria de Bruno Patrício.
O álbum também apresenta obras de outros grandes nomes da música. De Paulinho da Viola, a orquestra escolheu o choro “Só o tempo”, de 1982, cuja letra reflete sobre as lições do amor e o balanço dos sentimentos ao longo da vida. Nesta gravação, a cantora Ana Reis, também de Brasília e com uma importante trajetória no choro, é acompanhada por todos os naipes da Pizindim.
Hamilton de Holanda contribui com a faixa “Maxixe do César”, uma homenagem ao seu irmão Fernando César, violonista de sete cordas e membro da orquestra. Fernando César é amplamente reconhecido como um dos grandes chorões da atualidade e é figura indispensável em qualquer lista do gênero.
A gravação do álbum da Pizindim teve início em novembro do ano passado, com financiamento do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal. Caso consiga patrocínio em outros editais culturais, o disco poderá ser lançado em formato físico de LP, e a orquestra planeja uma turnê pelas capitais estaduais para compartilhar sua interpretação singular do choro.
Orquestra Pizindim
O single “O pulo do sapo”, de Léo Benon, está disponível a partir desta quinta-feira (23) nas plataformas sonoras.
O show de pré-lançamento ocorrerá na Escola de Música de Brasília, no Teatro Levino de Alcântara, localizado no SGAS II SGAS Quadra 602, nesta sexta-feira (24), às 20h.
A Orquestra Pizindim é composta pelos seguintes músicos: