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Jovens musicistas do Rio iniciam turnê na Itália com audiência no Vaticano

Orquestra Chiquinha Gonzaga, formada por alunas da rede pública, celebra o bicentenário das relações Brasil-Santa Sé com apresentações e intercâmbios culturais.

23/04/2026 às 15:20
Por: Redação

A Orquestra Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga, composta por jovens instrumentistas de 13 a 21 anos matriculadas em escolas públicas do Rio de Janeiro, embarca nesta sexta-feira, 24 de abril, para uma turnê pela Itália. O ponto alto da viagem será uma apresentação e audiência com o Papa Leão XIV, marcada para 29 de abril, na Praça São Pedro, no Vaticano, um evento que marca a estreia internacional do grupo no contexto das celebrações do Bicentenário das Relações Diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé.

 

Fundada em 2021, a orquestra nasceu com o objetivo claro de fomentar a presença e o protagonismo feminino no cenário da música sinfônica. Para simbolizar essa missão de luta, liberdade e representatividade, a formação recebeu o nome de Chiquinha Gonzaga, a primeira maestrina do Brasil, que se destacou como figura pioneira em sua época.

 

A diretora executiva e pianista Moana Martins explicou a relevância da escolha do nome para o projeto.

 

“Foi uma escolha muito consciente e carregada de significado. Chiquinha foi uma mulher à frente do seu tempo, que rompeu barreiras em uma sociedade extremamente restritiva para as mulheres. Ela foi compositora, maestra, ativista, uma mulher que lutou por autonomia e liberdade.”

 

Martins complementou que o nome de Chiquinha Gonzaga serve como uma fonte diária de inspiração e coragem para as jovens musicistas.

 

“Ao trazer o nome dela, a gente conecta as meninas a essa inspiração de coragem e realização. É como se disséssemos, todos os dias: vocês também podem transformar a história”.

 

A orquestra é formada exclusivamente por mulheres, totalizando 52 instrumentistas, e celebrará seu quinto aniversário em 2026.

 

Uma das integrantes, a flautista Nathaly Joyce, de 21 anos, residente de Tomás Coelho, na zona norte carioca, faz parte do projeto desde sua criação, tendo ingressado por meio de audição. Ela descreve a emoção de se apresentar, rememorando o caminho percorrido.

 

“Desde de quando a gente tinha dificuldade em uma música e por conta de estudos e motivação, não só de professores e maestros, mas da própria orquestra, a gente ali se apoiando. É lindo ver o companheirismo e a aliança através da música.”

 

Nathaly expressou gratidão pelo apoio integral da família em sua carreira musical, que ela já considera sua profissão, e revelou seus planos futuros.

 

“Estou me formando em faculdade de música e penso futuramente continuar na área musical e em outras áreas como regência e fazer mestrado e doutorado.”

 

Agenda Cultural e Diplomática na Itália

 

A turnê, batizada de Conexão Vaticano, estender-se-á de 23 de abril a 1º de maio, com uma programação diversificada que inclui não apenas a audiência papal, mas também diversas atividades culturais em Roma.

 

As jovens, carinhosamente conhecidas como "Chiquinhas", participarão de intercâmbios acadêmicos com renomadas instituições de ensino musical europeias, como a Sapienza Università di Roma e a Accademia de Santa Cecilia.

 

Apresentações adicionais estão agendadas no Cinema Troisi, novamente na Sapienza Università di Roma, e na Embaixada do Brasil em Roma, onde participarão do encerramento de uma mostra audiovisual de cinema brasileiro, também parte das comemorações do Bicentenário das Relações Diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé.

 

Para a violinista Clarysse Amaral, de 21 anos, moradora de São Cristóvão, zona norte do Rio, a oportunidade de tocar para o pontífice é de uma magnitude sem igual.

 

“Não tem nem como comparar com outra coisa. Eu vejo como importante e acho que é um feito histórico, sinceramente.”

 

Clarysse também destacou o apoio incondicional de sua família em sua jornada musical.

 

“Graças a Deus estão sempre comigo e muito felizes com as minhas conquistas tanto na Chiquinha como na música em si. Sou muito grata a eles.”

 

Destaques do Repertório e Regência

 

O programa musical selecionado para os concertos homenageia grandes nomes da música brasileira, incluindo obras de Carlos Gomes, Guerra-Peixe, Baden Powell, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Milton Nascimento, Gilberto Gil, Djavan e Chico Buarque. A cantora Flor Gil, neta de Gilberto Gil, fará participações especiais nas apresentações.

 

Além disso, a turnê incluirá a execução de uma peça inédita da compositora brasileira Ágatha Lima, que reside na Itália e teve sua obra selecionada por meio de uma chamada pública organizada pelo projeto.

 

Embora Priscila Bomfim seja a regente oficial da orquestra, Ludhymila Bruzzi assumirá a batuta durante a turnê italiana, devido à impossibilidade de viagem de Bomfim. Bruzzi descreveu sua experiência com as musicistas.

 

“É sobre criar laços, cultivar a confiança, e principalmente a autoconfiança delas em relação ao ofício de ser musicista, em um meio ainda tão dominado pelos homens.”

 

A maestrina Ludhymila Bruzzi ressaltou a importância da formação exclusivamente feminina para acelerar a mudança no ambiente musical.

 

“O fato da orquestra ser só de meninas, mulheres pesa muito para que a mudança seja cada vez mais rápida e presente no meio musical. Existe um senso de união e representatividade muito vivo entre elas, fazendo com que tenham a certeza que podem e devem estar ali e em qualquer outro grupo ou palco pelo mundo.”

 

Apoio e Impacto Social do Projeto

 

A turnê Conexão Vaticano conta com o apoio do Ministério das Relações Exteriores, da Embaixada do Brasil junto à Santa Sé, da Embaixada do Brasil em Roma e do Instituto Guimarães Rosa. O patrocínio é da Zurich Santander, viabilizado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura. A Petrogal Brasil, uma Joint Venture Galp|Sinopec, atua como patrocinadora master do projeto ao longo do ano, também por meio da mesma legislação.

 

Esta é a sexta vez que a OSJ Chiquinha Gonzaga realiza uma turnê internacional. Em 2025, o grupo, com Flor Gil, se apresentou no Carnegie Hall em Nova York, nos Estados Unidos, e no Festival Nos Alive em Oeiras, Portugal. Em 2024, a orquestra esteve em Bordeaux, na França, e em 2023, visitou diversas cidades da Suíça. No ano anterior, as jovens musicistas se apresentaram em Portugal e Espanha. Dos 52 membros da orquestra, 27 participam especificamente desta viagem para a turnê Conexão Vaticano.

 

A diretora executiva Moana Martins salientou que a manutenção de um projeto com o alcance da Orquestra Chiquinha Gonzaga é complexa, abrangendo um vasto ecossistema social que se inicia nos polos de formação e se estende às ações de profissionalização. Ela enfatizou que o propósito é o que impulsiona a iniciativa.

 

“Sou muito feliz por acompanhar o crescimento de cada Chiquinha. Elas começam ainda tímidas, encontrando o seu som e não demora muito, a transformação acontece. As meninas vão ocupando seus espaços nos teatros, nas universidades, protagonizando histórias lindas e realizando seus sonhos e de suas famílias.”

 

O projeto gera um impacto significativo e tangível nas famílias e comunidades, evidenciado por melhorias no desempenho escolar, no comportamento e na autoconfiança das meninas.

 

As jovens se tornam modelos em seus lares, inspirando irmãos, fortalecendo laços familiares e abrindo novas perspectivas em contextos que frequentemente carecem de acesso a oportunidades. A orquestra, assim, funciona como um catalisador de mobilidade social e transformação simbólica, expandindo horizontes.

 

Conforme Moana, o que verdadeiramente sustenta a Orquestra Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga é o sentido de sua existência.

 

“No fim das contas, o que sustenta a Orquestra Sinfônica Juvenil Chiquinha Gonzaga é o sentido.”

 

Para celebrar seus cinco anos de história, a Orquestra lançou um selo comemorativo que simboliza não apenas o aniversário, mas também a dedicação, a formação artística e o impacto social construídos ao longo do tempo.

 

Um dos pilares do programa da OSJ Chiquinha Gonzaga é o rigor acadêmico, sendo que apenas as alunas com os melhores resultados escolares são selecionadas para os intercâmbios internacionais.

 

A diretoria da orquestra informou que, como resultado direto dessa política, o Relatório de Impacto de 2025 revelou um desempenho acadêmico 96,6% superior à média dos estudantes da rede estadual do Rio de Janeiro.

 

Além dos avanços acadêmicos, o projeto promove uma profunda mudança na mentalidade das alunas, muitas das quais são as primeiras em suas famílias a ingressar na universidade e a desenvolver projetos de vida mais ambiciosos e sustentáveis, evidenciando o poder transformador da música.

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