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Alice Caymmi reaviva legado de Dorival para o público jovem

Álbum 'Caymmi' explora a atemporalidade das composições, mirando novas gerações e desafiando visões críticas sobre a obra original.

23/04/2026 às 15:07
Por: Redação

A cantora Alice Caymmi concretiza um projeto de três anos com o lançamento de seu novo álbum, intitulado “Caymmi”, dedicado à obra de seu avô, o renomado compositor Dorival Caymmi. A iniciativa visa introduzir as composições do artista baiano a novas gerações, explorando diferentes gêneros musicais. O processo representou um desafio significativo para Alice, que buscou refletir sobre sua própria trajetória e suas raízes familiares durante a concepção do trabalho.

 

“Meu avô queria ser ouvido, estar na boca do povo. Quando estava fazendo um show gostava quando sabia que vinha a faxineira, o segurança e o pessoal da cozinha assistir. Era aí que se sentia contemplado e amado. A atenção que ele dava era impressionante”, disse Alice Caymmi em entrevista à Agência Brasil, ressaltando que essa característica, que rejeita a arrogância e a distância do público, é um traço marcante de sua família.
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Alice Caymmi reforçou o valor atribuído ao público em seu ambiente familiar, citando que seu avô aspirava a ser reconhecido como o autor de uma obra tão universal quanto "Ciranda Cirandinha", e que, de fato, suas composições alcançaram uma popularidade comparável.

 

O álbum foi desenvolvido sob a produção do baterista Iuri Rio Branco, com o selo Daluz Música, seguindo essa perspectiva de popularidade. A cantora explicou que o objetivo era resgatar a imagem de Dorival Caymmi como um artista popular, algo que, em sua visão, não acontecia há muito tempo.

 

Alice Caymmi manifestou convicção de que essa abordagem facilitará a recepção da obra pelo público mais jovem, pois considera Dorival um artista intrinsecamente ligado às massas e à juventude. Ela também antecipa que uma parcela dos ouvintes mais novos, sem contato prévio com o repertório do avô, poderá inicialmente atribuir as canções a ela mesma.

 

“Dorival é tão atemporal, tão eterno, tão simples e preciso, tão maravilhoso que muita gente vai ouvir e ver este disco, vai ver Caymmi e pensar ‘é o nome dela’ e não vai se ligar que é um disco em homenagem a Dorival. Vai gostar do disco pelas canções lindas que ele tem”, afirmou, complementando que, após esse primeiro contato, a autoria das composições de Dorival Caymmi será esclarecida ao público.

 

A Seleção do Repertório

 

A seleção das faixas para o álbum foi conduzida de forma leve e divertida, evitando que o processo se tornasse desgastante. Alice Caymmi explicou que sua principal intenção, em colaboração com Iuri, era abordar a obra de seu avô com uma perspectiva descontraída, inovadora, alegre e espontânea.

 

Alice já possuía a visão de criar um álbum com sonoridade mais "solar" e que explorasse múltiplos gêneros musicais. O formato final do projeto foi sendo delineado progressivamente durante as sessões de trabalho com o produtor. Ela enfatizou a importância da colaboração e da boa química com o produtor, afirmando que a parceria no estúdio foi extremamente bem-sucedida, com as escolhas sendo feitas ao longo do desenvolvimento.

 

A cantora teceu grandes elogios a Iuri Rio Branco, descrevendo-o como “um gênio da música, um dos maiores que já vi em ação”. Ela ressaltou que a experiência de trabalhar com ele, com quem já havia colaborado anteriormente, foi e continua sendo um imenso prazer.

 

Desafiando Críticas

 

A percepção de alguns críticos musicais de que a obra de Dorival Caymmi seria “definitiva e pronta” serviu como um poderoso estímulo para Alice buscar inovação nas releituras das canções de seu avô.

 

“É uma coisa que me move muito e essa de ‘não pode’ me comove bastante. Não fui diagnosticada, mas com quase certeza, tenho o que se chama Transtorno Opositor Desafiador, POD. Não posso ver um negócio que não pode, que eu preciso fazer”, declarou.

 

“Quando se diz que a obra do Caymmi é irretocável e impossível de se reler e de se refazer, é ai que faço questão mesmo. Sempre soube que em algum momento eu ia fazer isso, só não sabia que ia ser assim”.

 

O Caráter de “Modinha para Gabriela”

 

A faixa "Modinha para Gabriela" foi escolhida como o primeiro lançamento do álbum, considerando sua ampla popularidade e o fato de ter sido trilha sonora de uma novela televisiva, o que a torna um atrativo para as demais canções do projeto. Alice Caymmi expressou apreço pela forma como a própria personagem se revela e se define na letra da música.

 

“É um grito de liberdade feminino muito bonito e também muito delicado e especial. Nessa fase da minha vida me vejo muito nesse lugar. É uma boa música para apresentar um disco e dizer ‘olha eu sou assim. Faz sentido. É uma letra que puxa isso. Uma apresentação”.

 

Além de "Modinha para Gabriela", outras composições que receberam novas interpretações no álbum dedicado a Dorival Caymmi incluem "Maracangalha" e "Dois de Fevereiro".

 

Herança Familiar e Processo Criativo

 

Pertencer a uma linhagem musical proeminente no Brasil, que inclui figuras como seu avô, sua avó (Stela Maris), sua tia Nana Caymmi, seu tio Dori Caymmi e seu pai Danilo Caymmi, não representou um obstáculo para Alice desenvolver o projeto conforme suas intenções. Ela afirmou que “seria muito difícil se eu abraçasse a dificuldade, se eu entrasse nessa pilha, mas decidi não entrar nisso agora”.

 

Em defesa da liberdade criativa, Alice Caymmi mencionou a frase do rapper Tyler, The Creator: “crie como uma criança e edite como um cientista”, e afirmou ter seguido esse preceito rigorosamente.

 

“Eu quis criar como uma criança. Perdi todas as amarras. Eu chamei o Iuri por isso. Ele é muito corajoso. Uma coragem quase inconsequente”, revelou a cantora.

 

Alice Caymmi descreveu uma profunda conexão com seu avô, sentindo sua presença de forma contínua, algo que se manifestou de maneira particular durante a produção do novo álbum. Ela narrou que a escolha de Iuri para a produção foi confirmada por meio de um jogo de búzios, que apresentou 28 búzios abertos e apenas um fechado. Esse resultado, conhecido como Aláfia-Onan na cultura iorubá – que simboliza caminhos abertos para a paz ou prosperidade –, surpreendeu até mesmo o pai de santo pela sua raridade em circunstâncias similares.

 

“A gente ficou rindo porque é um jogo raríssimo e eu falei ‘tá bom vô’, porque meu vô é muito presente. Ancestral na minha religião é uma entidade presente na vida da gente. Meu vô fala comigo tranquilamente por meio de várias vias. Toda vez que ele tem oportunidade dá um alô e as pessoas ficam apavoradas”.

 

“O Iuri já viu umas coisas dessas assim acontecendo. Ele sabe que a confirmação é total. Além de a gente já ter trabalhado, ter dado tudo certo e eu já admirá-lo, o vovô aprovou de um jeito louco”, disse a cantora com um sorriso.

 

“Até do outro lado ele continua sendo um homem muito simples e de poucas exigências. A única coisa que ele quer é a música”, afirmou.

 

Próximas Apresentações

 

As futuras apresentações da artista em território nacional serão integralmente baseadas no conteúdo do novo álbum. Alice Caymmi destacou que “É o show, totalmente, focado neste disco. A ideia é mergulhar, promover e fazer ele ser visto, ouvido e dançado na rua. É um disco muito interessante neste sentido e acho que vai funcionar”.

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