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Homens ampliam engajamento contra machismo e violência

Iniciativas e programas buscam maior participação masculina para construir sociedade mais igualitária.

25/04/2026 às 15:16
Por: Redação

Programas, cursos e campanhas buscam intensificar a participação masculina no combate à violência contra a mulher e na construção de uma sociedade mais igualitária. Apesar dos esforços, o número de homens ativamente engajados na desconstrução do machismo ainda é considerado reduzido, apontando para a urgência de ampliar essa mobilização.

 

O psicólogo Flávio Urra, que atua no programa “E Agora, José?”, salienta a necessidade premente de incluir mais homens nesta discussão, afirmando que a participação masculina é crucial no enfrentamento à violência de gênero. Ele observa que, de modo geral, os homens não se reconhecem como responsáveis pelo machismo, o que gera grande resistência ao tema.

 

Essa resistência é ainda mais acentuada entre os homens que são autores de violência. Segundo Urra, esses participantes, frequentemente obrigados por uma determinação judicial, sentem-se injustiçados ao serem compelidos a integrar os grupos de responsabilização.

 

O papel do programa E Agora, José?

 

A Lei Maria da Penha estabelece a obrigatoriedade de agressores comparecerem a programas de recuperação e acompanhamento psicossocial. O programa “E Agora, José? Pelo Fim da Violência contra a Mulher” configura-se como um grupo socioeducativo focado na responsabilização desses homens.

 

O curso oferecido pelo programa consiste em 20 encontros, cada um com duas horas de duração. Ao término da participação, Flávio Urra relata que a percepção unânime dos homens é de que se tornaram pessoas melhores. Eles frequentemente expressam que se tornaram pais e companheiros mais qualificados, evidenciando uma mudança significativa.

 

“Estão melhores pais, estão melhores companheiros, trazem isso no discurso que houve uma mudança ali. Se a gente for pensar que já passaram para nós cerca de 2 mil homens e se a gente conseguir, de alguma forma, afetar a vida desses 2 mil homens e das mulheres que convivem com eles, possivelmente está havendo uma mudança na sociedade.”

 

Desafios no ambiente corporativo

 

Felipe Requião, consultor de empresas com sete anos de experiência como facilitador de grupos masculinos, identificou padrões comportamentais recorrentes. Entre eles, destacam-se a desresponsabilização individual, manifestada em frases como “eu não faço esse tipo de coisa, não sou eu” ou “tem coisa muito pior que acontece”, a invisibilização do impacto de suas ações e, em certos casos, a vitimização e o desvio de foco.

 

Requião explica que esses comportamentos derivam de um aprendizado cultural, o que torna as rodas de conversa ferramentas essenciais para a mudança. No ambiente corporativo, a resistência dos homens em participar de discussões é também notável, muitas vezes ligada ao receio de perder espaço. Expressões como “Poxa, agora vão tirar espaço dos homens” ou “agora eu não posso mais, não serei considerado para determinadas posições, promoções” são comuns.

 

O consultor enfatiza a importância do engajamento das lideranças na promoção das pautas de diversidade, equidade, inclusão e pertencimento. Ele defende que a transformação deve ser um processo contínuo, não se limitando a palestras ou eventos isolados. Observa-se que os homens tendem a se envolver mais profundamente na questão após três ou quatro encontros reflexivos.

 

Estudos apontados por Felipe Requião indicam que ambientes de trabalho com maior igualdade entre homens e mulheres resultam em melhoria do clima organizacional.

 

“Uma mudança real acontece quando a gente, homem, percebe que não está perdendo. Está se libertando de um modelo que nos restringe, que nos limita, que nos cerceia e que a gente pode fazer diferença performando uma masculinidade de um outro lugar.“

 

Carlos Augusto Souza Carvalho, engenheiro de 55 anos, exemplifica essa liderança comprometida. Após participar de um grupo de homens, ele implementou palestras sobre masculinidade para os funcionários de sua empresa de engenharia. Ele descreve as reuniões como “impressionantes” e “enriquecedoras”, revelando o quanto todos os homens, independentemente de sua classe social, condição financeira, posição ou orientação sexual, têm a contribuir nessas discussões.

 

Impacto das redes sociais e da comunidade

 

Desde 2017, o psicólogo Alexandre Coimbra Amaral oferece um espaço terapêutico gratuito e online para homens. Ele relata que a melhoria no bem-estar já se inicia quando os participantes se sentem à vontade para expressar suas dores ou apenas acompanhar as conversas sobre machismo e masculinidades.

 

Como terapeuta familiar, Amaral advoga que os pais devem dialogar sobre machismo e masculinidades com outros pais, utilizando, por exemplo, grupos de mensagens escolares para compartilhar experiências sobre como abordar a questão quando os filhos estão envolvidos. Ele ressalta que a formação de comunidades, atualmente em baixa, é fundamental para desenvolver discursos que transcendam o âmbito familiar, atuando como um elo entre a família, as políticas públicas e a legislação.

 

Ações do Movimento Laço Branco

 

O movimento global Laço Branco designou 6 de dezembro como o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres no Brasil. A campanha Laço Branco desenvolve ações contínuas ao longo do ano, incluindo o projeto “Homens de Honra”, que capacita multiplicadores para a causa.

 

Patricia Zapponi, fundadora e diretora do Instituto Laço Branco Brasil, destaca a eficácia de ter homens falando sobre o enfrentamento ao machismo em diversos espaços, como clubes, escolas e templos. Ela aponta que a voz de um homem tem um impacto diferente ao abordar o agressor.

 

“Quando você leva o homem, seja para um canteiro de obra, seja para uma escola, você muda o olhar. Então é um desafio, porque o homem, na grande maioria [dos casos], ele é o agente da violência, mas ele passa a ser o agente do enfrentamento. Então ele tem mais voz para falar com o próprio ofensor.”

 

Um dos pontos fortes do Instituto é o engajamento masculino: o número de voluntários homens é quase o dobro do de mulheres. Todos os voluntários masculinos passam por uma rigorosa inspeção de seus CPFs para garantir que não haja nenhum histórico de agressão. Outras iniciativas do Laço Branco incluem o Orange Day e a criação de núcleos integrados de Acolhimento à Mulher, onde advogados oferecem assistência jurídica a vítimas de violência.

 

A escola como ambiente transformador

 

O programa “Maria da Penha Vai à Escola”, que visa prevenir e coibir a violência contra a mulher, é uma iniciativa do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) que já completa dez anos. A parceria envolve o TJDFT, o Ministério Público do Distrito Federal, a Secretaria de Estado de Educação do DF, entre outras instituições. Recentemente, a ação foi integrada ao Plano Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, que abrange os Três Poderes.

 

A psicóloga e pesquisadora Valeska Zanello observa que, em todo o país, existem práticas construtivas e bem-sucedidas na promoção da reflexão sobre o tema. Ela defende que não é preciso “inventar a roda”, mas sim compartilhar e aprimorar esses conhecimentos já existentes. Zanello enfatiza o papel fundamental da escola na transformação da comunidade e sugere a inclusão dos pais nesse processo de letramento de gênero. Isso pode ser feito por meio de palestras em reuniões escolares, que não apenas informem, mas também impactem os pais, convidando profissionais de diversas áreas para discutir temas como violência sexual contra crianças e adolescentes e violência doméstica.

 

Peu Fonseca, orientador familiar, defende que para repensar o machismo, é essencial envolver homens e mulheres em rodas de conversa plurais. Ele nota que, em comunidades escolares, os homens frequentemente formam seus próprios grupos para discutir paternidade e o papel no cuidado, mas talvez não abordem o assunto da forma esperada. Por isso, ele propõe que os homens e pais sejam convidados para ambientes integrados, que incluam a participação de mulheres, e não apenas discussões restritas ao universo masculino.

 

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