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Cientistas criam painel global para impulsionar transição energética

Grupo de especialistas de diversas áreas se une para fornecer base de evidências a governos e resgatar papel da ciência em decisões climáticas.

25/04/2026 às 21:41
Por: Redação

Um novo organismo dedicado à transição energética global foi formalmente estabelecido por um coletivo de cientistas de diversas especialidades, incluindo clima, economia e tecnologia. Denominado Painel Científico para a Transição Energética Global (SPGET), sua criação foi anunciada no sábado (25), durante a Primeira Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, que ocorreu em Santa Marta, Colômbia.

 

O principal objetivo do SPGET é oferecer suporte consultivo a governos em todo o mundo na implementação da transição energética. A iniciativa visa gerar recomendações fundamentadas em evidências científicas, as quais deverão servir de base para o desenvolvimento de políticas públicas eficazes e a execução de ações concretas com vistas à descarbonização da economia global.

 

O evento de lançamento do painel reuniu figuras proeminentes da comunidade científica internacional. Entre os presentes, destacam-se os pesquisadores brasileiros Carlos Nobre, renomado por seus estudos sobre a Amazônia, e Gilberto Jannuzzi, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O sueco Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, também marcou presença e enfatizou a relevância da ciência neste processo.

 

“A transição energética é complexa e envolve economia, meio ambiente e justiça social. A ciência pode atuar como ponte entre países que avançam mais rápido e aqueles que ainda estão hesitantes. O painel é uma forma de integrar todos gradualmente”, afirmou Rockström.


 

A ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, também participou do anúncio e expressou seu apoio à iniciativa, ressaltando que o painel supre uma lacuna histórica na abordagem das questões energéticas globais.

 

“Este painel não só repara uma dívida ao criar, pela primeira vez, um organismo dedicado à superação dos combustíveis fósseis, como também discute outros desafios sociais e econômicos dessa transformação”, declarou Irene.


 

A ministra colombiana complementou sua declaração, explicando que o SPGET é o primeiro de seu tipo projetado para coletar, ao longo de um período de cinco anos, dados científicos cruciais que capacitarão cidades, regiões, nações e coalizões a empreenderem essa significativa mudança paradigmática.

 

O painel também se propõe a intensificar a colaboração entre instituições acadêmicas e governos, além de contribuir para a formulação de estratégias coordenadas voltadas para a redução das emissões de gases de efeito estufa. As atividades planejadas incluem a elaboração de recomendações técnicas detalhadas, o acompanhamento rigoroso das políticas implementadas e a integração com processos internacionais, como a COP30, que será presidida pelo Brasil.

 

Claudio Angelo, coordenador do Observatório do Clima, sublinhou a importância de reposicionar a ciência como um pilar fundamental nas decisões políticas relacionadas ao clima e meio ambiente. Ele observou que este papel tem sido, em parte, negligenciado no contexto da Convenção do Clima.

 

“Isso parece óbvio, mas vem sendo um pouco esquecido no âmbito da Convenção do Clima. Antigamente, todos os grandes encontros para debater mudança climática, como a Eco-92, começaram sob a égide de algum relatório do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática”, disse Claudio.


 

Angelo ainda citou um exemplo de desvalorização do conhecimento científico, mencionando que, em 2018, na COP24, um extenso relatório do IPCC – que havia sido inclusive solicitado pela própria Convenção do Clima – foi relegado a uma mera nota de rodapé na decisão final da Conferência.

 

A Conferência de Santa Marta

 

A Conferência de Santa Marta, evento que sediou o anúncio do SPGET, contou com a participação de 57 países, incluindo o Brasil, e aproximadamente 4.200 organizações. Entre os participantes estavam representantes de governos, do setor privado, de povos indígenas, da academia e da sociedade civil. O propósito do encontro foi impulsionar a adoção de medidas concretas para diminuir a dependência global de combustíveis fósseis, focando em três eixos estratégicos: a transformação econômica, a modificação dos padrões de oferta e demanda de energia e o fomento da cooperação internacional.

 

Nos dias iniciais da conferência, entre 24 e 27 de abril, foram consolidadas as propostas que posteriormente serviriam de guia para a Cúpula de Líderes, realizada nos dias 28 e 29 de abril. Os resultados esperados do evento incluíam a criação de mecanismos de cooperação entre as nações participantes e a elaboração de um relatório contendo diretrizes claras para acelerar o processo de transição energética.

 

Van Veldhoven, ministra do Clima e do Crescimento Verde dos Países Baixos, que lidera a iniciativa juntamente com a Colômbia, destacou a relevância dos participantes. Ela afirmou que “com mais de 50% do PIB global representado nesta Conferência, este grupo tem a capacidade coletiva de transformar essas cinco palavras em ações concretas”.

 

“Com a crescente volatilidade no mercado de combustíveis fósseis, não há melhor momento para iniciar a transição para longe dos combustíveis fósseis, reduzindo o impacto climático, reforçando a independência energética e impulsionando o crescimento econômico verde”, acrescentou a ministra.


 

O ativista socioambiental sul-africano Kumi Naidoo expressou que a conferência representa uma oportunidade crucial para instituir medidas tangíveis, algo que a Conferência das Partes (COP), a cúpula anual das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, tem tido dificuldades em concretizar.

 

“Queremos receber o que pedimos para a COP desde pelo menos 2009: um acordo fantástico, que seja justo, ambicioso e vinculativo. Na maioria das vezes, recebemos acordos superficiais, cheios de brechas”, criticou Naidoo, que atualmente lidera a Iniciativa do Tratado de Não Proliferação de Combustíveis Fósseis (Fossil Fuel Treaty).


 

Ele concluiu sua fala enfatizando que, “independentemente da qualidade do trabalho científico, precisamos garantir que o processo político esteja em andamento. Outros mecanismos e caminhos juridicamente vinculativos, como o tratado sobre combustíveis fósseis, são cruciais”.

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