O balanço divulgado pelo Global Forest Watch, ferramenta mantida pelo World Resources Institute (WRI), revela que o Brasil perdeu, em 2025, um total de 1,6 milhão de hectares de cobertura arbórea em áreas de floresta tropical úmida. Esse volume representa uma redução de 42% em relação ao índice apurado em 2024. O relatório, publicado na quarta-feira (29), destaca que a maior parte da queda foi registrada nas derrubadas sem ocorrência de fogo, incluindo desmatamento, corte raso e morte natural das árvores.
Segundo a codiretora do Global Forest Watch, Elizabeth Goldman, as perdas não associadas a incêndios tiveram queda de 41% na comparação com o ano anterior, atingindo o menor nível já registrado desde o início do monitoramento, em 2001.
Entre os estados que mais contribuíram para a diminuição das perdas florestais, destacam-se Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Acre e Roraima, que juntos responderam por mais de 40% da redução registrada. Entretanto, o Maranhão foi o único estado brasileiro a apresentar crescimento na perda de cobertura arbórea durante o período analisado.
Os dados utilizados pelo estudo são produzidos anualmente pelo Laboratório de Análise e Descoberta de Terras Globais (Glad), da Universidade de Maryland, e referem-se à vegetação primária, ou seja, áreas compostas por florestas maduras com vegetação original. O método do Global Forest Watch inclui, além do desmatamento, outros tipos de distúrbios florestais, como corte seletivo e mortes naturais, ao contrário do sistema oficial brasileiro, o Projeto de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), que foca apenas no desmatamento.
Elizabeth Goldman explica que, apesar das diferenças metodológicas entre os sistemas, a redução observada pelo Global Forest Watch está alinhada à queda do desmatamento nos principais biomas, tal como apontado pelo Prodes entre 1º de agosto de 2024 e 31 de julho de 2025.
“Além das florestas tropicais primárias, pensando em toda a perda arbórea, a maioria dos biomas viram uma redução, inclusive a Caatinga, que é uma região de florestas secas no Nordeste do Brasil”, destaca a pesquisadora.
A diretora executiva da WRI Brasil, Mirela Sandrini, atribui o desempenho brasileiro a uma força-tarefa composta por governo, sociedade civil, universidades, comunidades locais e setor privado. Segundo ela, iniciativas como a intensificação do uso produtivo de áreas já desmatadas, o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), ações de pagamento por serviços ambientais e incentivos fiscais à conservação seguem as expectativas mundiais para os próximos anos.
Para Mirela, o protagonismo brasileiro nas soluções em larga escala para segurança alimentar, energética e climática tem papel fundamental. Ela ressalta a importância desse desempenho diante do contexto internacional.
Os pesquisadores apontam que o desempenho do Brasil influenciou positivamente o cenário mundial. Em 2025, houve perda de 4,3 milhões de hectares de cobertura arbórea em florestas tropicais úmidas em todo o planeta. Este dado representa uma diminuição de 35% em relação ao ano de 2024, período no qual foram perdidos 6,7 milhões de hectares.
No recorte global, as perdas de vegetação não relacionadas a incêndios atingiram o patamar mais baixo dos últimos dez anos, com redução de 23% em relação ao ano anterior. Por outro lado, as perdas decorrentes de incêndios continuam elevadas, sendo consideradas a terceira maior marca já registrada desde 2001. Elizabeth Goldman ressalta que os números referentes aos focos de incêndio em 2025 ainda serão revisados, pois podem incluir registros de queimadas ocorridas tardiamente em 2024, já que a fumaça resultante pode dificultar a detecção por satélites e atrasar o reconhecimento dessas ocorrências.
No total global de 2025, as perdas de cobertura arbórea no Brasil corresponderam a mais de 37% do volume mundial, colocando o país como o que mais perdeu em extensão. Em seguida, aparecem a Bolívia, com 620 mil hectares, e a República Democrática do Congo, com quase 600 mil hectares. Considerando-se a proporção entre a área perdida e o tamanho da floresta de cada país, Bolívia e Madagascar lideraram as perdas proporcionais.
“A expansão agrícola foi a principal causa da perda de cobertura arbórea nos trópicos, devido à produção de commodities e mudança nos cultivos para subsistência dos mercados locais”, acrescenta a codiretora do WRI.
O relatório aponta que, em escala global, os incêndios foram os principais responsáveis pela perda de vegetação em 2025. Nos últimos três anos, a destruição causada pelo fogo foi duas vezes maior do que a observada nas duas décadas anteriores.
Apesar da avaliação positiva em relação à queda das perdas florestais nos trópicos em 2025, Elizabeth Goldman adverte que os resultados ainda são insuficientes para garantir o cumprimento do compromisso assumido por 140 países de deter e reverter a perda florestal até 2030. Segundo ela, atualmente o mundo está 70% acima do patamar necessário para atingir essa meta.
“Alcançar essa meta nos próximos anos não será fácil porque as florestas estão mais vulneráveis às mudanças climáticas, e a humanidade continua crescendo e aumentando a sua demanda por combustíveis e alimentos”, conclui Elizabeth Goldman.
O relatório reforça que a continuidade dos esforços de preservação e a implementação de políticas públicas integradas, incentivos e fiscalização serão fundamentais para manter a tendência de redução das perdas florestais e para que o Brasil siga contribuindo de maneira significativa para o cenário global.