Segundo levantamento realizado a partir dos dados da Comissão Nacional da Verdade (CNV), aproximadamente dois terços dos empresários identificados como apoiadores da ditadura militar brasileira possuíam ascendência em famílias que praticavam a escravidão. Entre os 62 empresários mencionados no relatório da CNV, 40 tiveram sua genealogia confirmada como originária de linhagens de antigos senhores de escravos.
O relatório final da CNV dedica um capítulo à participação de civis na sustentação do regime, detalhando a atuação das empresas que financiaram a ditadura sob diversas formas. Foram utilizados para a confirmação dos antepassados dos empresários registros como certidões de nascimento e óbito, livros de batismo e documentos disponíveis em plataformas de pesquisa genealógica.
Entre os sobrenomes destacados estão famílias como Guinle de Paula Machado, antigos proprietários do Porto de Santos; Batista Figueiredo, com integrantes que ocuparam cargos como ditador militar e vice-presidente da Bolsa de Mercadorias de São Paulo; Beltrão, de Pernambuco, com Hélio Beltrão, executivo do Grupo Ultra e ministro do Planejamento do governo Costa e Silva; e Vidigal, ligados ao Banco Mercantil e à Cobrasma, Companhia Brasileira de Material Ferroviário.
O professor de filosofia política da Unifesp e coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense, Edson Teles, esclarece que a lógica da extração foi um dos pilares do modelo econômico vigente durante a ditadura.
“Extrair é o verbo fundamental do modelo econômico da ditadura. Extrair como ação fundamental e, por muitas vezes, quase que exclusiva.”
Teles faz um paralelo entre esse modelo e a tradição escravocrata, apontando que a extração não se limitava aos recursos naturais, mas também atingia os trabalhadores, cujos direitos eram frequentemente desconsiderados, levando a situações análogas à escravidão e à violação de direitos, inclusive com práticas de violência extrema.
O pesquisador liderou o estudo mais abrangente já feito no Brasil acerca das relações entre empresas, nacionais e multinacionais, e o regime militar. Segundo ele, a aliança entre poder econômico e repressão foi direcionada principalmente para enfraquecer as organizações dos trabalhadores.
“A relação mais íntima entre empresas e ditadura se deu justamente no ataque à organização dos trabalhadores. Logo que se deu o golpe, no mês de abril de 1964, 20 mil pessoas foram presas em um mês. É muita coisa. A grande maioria, trabalhadores sindicalizados”, lembra.
O impacto nas condições dos trabalhadores também é ressaltado por Marco Antônio Rocha, professor do Instituto de Economia da Unicamp, que relata a queda do poder de compra do salário mínimo em 50% apenas dois anos após o golpe, devido à alteração da política de indexação e à inflação elevada.
Dados do IBGE apontam que, de 1960 a 1972, a concentração de renda entre os 5% mais ricos do país saltou de 28% para quase 40%, evidenciando o agravamento da desigualdade social no período.
A permanência das mesmas famílias em postos de influência ao longo dos séculos contribui para o atual cenário de mobilidade social reduzida no país. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), são necessárias nove gerações, o equivalente a cerca de 300 anos, para que uma pessoa nascida pobre ascenda à classe média no Brasil. Esse índice de imobilidade é comparável ao de países como Colômbia e África do Sul.
“Para entender o Brasil, para entender a nossa grande desigualdade social, para entender a violência simbólica, social, política e real, a gente precisa entender essas famílias”, avalia Ricardo Oliveira, coordenador do Núcleo de Estudos Paranaenses e estudioso da genealogia do poder.
No intuito de compreender como as desigualdades se perpetuam, foi analisada a trajetória da família Bueno Vidigal, que durante a ditadura militar alcançou grande influência política e econômica. O grupo atuava em diferentes setores – indústria, serviços e sistema financeiro – e esteve envolvido em múltiplas frentes de apoio ao regime, desde o golpe até o financiamento de mecanismos de repressão.
O patriarca Gastão Vidigal fundou a Cobrasma, especializada em trilhos e trens, e o Banco Mercantil, que foi o maior banco privado do país. A Cobrasma foi herdada por seus descendentes Luís Eulálio Bueno Vidigal e Luís Eulálio Bueno Vidigal Filho. O Banco Mercantil ficou sob o comando de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal até sua morte em 2001, quando foi vendido para o Bradesco.
Documentos encontrados no Ministério do Trabalho pela historiadora Cláudia Moraes de Souza, professora da Unifesp, revelam que as condições laborais na Cobrasma se assemelhavam àquelas análogas à escravidão, especialmente pela ausência de sanitários adequados, refeitório, equipamentos de segurança e até mesmo água potável para os funcionários.
“Não havia sanitários suficientes para o número de trabalhadores, não havia refeitório, o trabalhador, na hora do almoço, saía para a calçada e almoçava com a marmita no chão. Não havia material de segurança, água filtrada ou pelo menos água, para se beber durante o expediente. Então, questões mínimas, ligadas à higiene e à segurança do trabalhador”, relata a professora.
Esse contexto resultou na greve de Osasco, em 1968, considerada um dos principais marcos da resistência operária da época. Durante a desocupação da fábrica pelo Exército, cerca de 400 trabalhadores foram presos, episódio que antecedeu o decreto do Ato Institucional 5 (AI-5), responsável pelo fechamento do Congresso, cassação de mandatos, censura à imprensa e suspensão do habeas corpus.
Após o AI-5, foi criada a Operação Bandeirantes (OBAN), embrião do sistema DOI-CODI, responsável por ações de tortura e repressão implantadas em dez capitais do país a partir de 1970. Tanto a OBAN quanto os DOI-CODIs tinham financiamento de empresas nacionais e estrangeiras, sendo o Banco Mercantil, de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, um dos sócios.
O jornalista Ivan Seixas, preso e torturado com seu pai no DOI-CODI de São Paulo aos 16 anos, relatou que empresas criaram um fundo de recompensa: cada pessoa capturada tinha um valor estabelecido. O capitão Carlos Lamarca, por exemplo, chegou a ter uma recompensa de 1,5 milhão de dólares por sua captura, e o próprio Ivan soube que sua prisão valeu ao carcereiro um prêmio de 300 dólares. Para Seixas, esse modelo de premiação fortaleceu o setor mais radical dos militares e contribuiu para a longevidade da ditadura.
Os Bueno Vidigal também coordenaram o Grupo Permanente de Mobilização Industrial, dedicado a adaptar indústrias para a produção de materiais militares. A Cobrasma foi acusada de transformar viaturas da Polícia Militar em veículos blindados para conter protestos nas ruas.
Os benefícios concedidos aos empresários em troca do apoio incluíam incentivos fiscais, contratos públicos e empréstimos bilionários. Em seu auge, a Cobrasma registrava faturamento anual de aproximadamente 470 milhões de dólares. Os empréstimos eram viabilizados por bancos estatais, como o BNDE (atual BNDES), muitas vezes concedidos em condições fora do padrão de mercado.
Gastão Vidigal nasceu em São Paulo, em 1889, como herdeiro de uma influente família do Nordeste. Casou-se com Maria Amélia Pontes Bueno, descendente de tradicionais famílias paulistas, entre elas a dos Buenos. Pesquisas realizadas pela equipe jornalística identificaram, em jornais sergipanos do século XIX, registros de transações escravistas envolvendo o avô de Gastão, Antônio Pedro Vidigal, que em 1853 publicou anúncio de compra de escravo.
Em 1882, outro jornal de Sergipe relatou o caso de uma mulher que tentava comprar a liberdade da filha e do neto. O preço de avaliação foi majorado em 33% sob justificativa de que a transação resultaria na alforria dos dois. Um dos responsáveis por essa avaliação era membro da família Vidigal.
No ramo materno, o avô de Maria Amélia, Augusto Xavier Bueno de Andrade, ofereceu uma fazenda de café em Campinas ao Banco do Brasil como garantia de empréstimo, incluindo 75 pessoas escravizadas como parte da garantia.
Atualmente, o nome Gastão Vidigal identifica ruas, avenidas, becos, praças, aeroporto e até município no interior de São Paulo, fatos que, segundo o professor José Marciano Monteiro, da Universidade Federal de Campina Grande, representam demarcações simbólicas das elites, contribuindo para a manutenção das desigualdades por meio da memória e do capital simbólico. Ele ressalta que, enquanto as elites preservam as memórias dos antepassados, a população historicamente escravizada teve suas referências familiares sistematicamente apagadas.
A Cobrasma encerrou as operações em 1998. Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, ligado ao Banco Mercantil, faleceu em 2001 aos 82 anos, figurando entre os indivíduos mais ricos do país. Em 2019, o Banco Paulista, fundado em 1990 por Álvaro Augusto Vidigal, sobrinho de Gastão Vidigal, foi investigado na Operação Lava Jato sob acusação de lavagem de 48 milhões de reais para a Odebrecht. Quando questionada pela reportagem, a assessoria do banco afirmou que Guti Vidigal, presidente da instituição, não é herdeiro direto do financiador da OBAN nem possui ligações com a Cobrasma.
O mesmo questionamento foi encaminhado à direção da Cobrasma, incluindo perguntas sobre a ocupação militar da fábrica em 1968, o crescimento da empresa no período da ditadura e o encerramento das atividades após a redemocratização. Não houve resposta às solicitações enviadas.