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Artistas representam Brasília por meio de expressões visuais e performáticas

Expressões artísticas de Brasília envolvem mímicas, música regional, moda e artes visuais

21/04/2026 às 14:44
Por: Redação

Há 66 anos, durante o discurso inaugural da capital federal, Juscelino Kubitschek já destacava o desafio de expressar em palavras os sentimentos e pensamentos suscitados pelo novo centro político do país. Décadas mais tarde, artistas continuam a buscar formas diversas de interpretar o espírito de Brasília, recorrendo a múltiplos suportes e linguagens para retratar sua complexidade e identidade.

 

Entre esses artistas está o mímico Miqueias Paz, com 62 anos de idade, que utiliza o corpo, o silêncio e os gestos para transmitir as diferentes facetas da cidade. Suas apresentações abordam desde as desigualdades sociais até a coragem dos migrantes e a vida cotidiana em uma metrópole ainda jovem. Miqueias chegou a Brasília quando tinha cinco anos, acompanhado da família, e, já na adolescência, envolveu-se com o teatro, especialmente aquele voltado para as experiências das pessoas vindas das periferias e dos imigrantes que se estabeleceram na capital.

 

Sua trajetória no teatro iniciou-se em Taguatinga aos dezesseis anos, inspirado por grupos como o H-Papanatas, que visitavam a capital recém-fundada. Ao longo do tempo, Miqueias passou a se apresentar também em espaços públicos, como ruas e ocupações, buscando conscientizar a população sobre direitos sociais, sempre utilizando a expressão corporal e evitando o uso de palavras.

 

Ele relembra que o teatro físico o tornou alvo de abordagens policiais e outras formas de microviolências. “Eu já começava a fazer mímica intuitivamente a partir das minhas histórias sociais: as coisas que eu vivia, que eu sentia, o ônibus apertado, a falta de grana. Esse passou a ser um eixo do meu trabalho”, diz.


 

Nos anos 1980, ao encenar os espetáculos “Sonho de um retirante” e “História do homem”, inicialmente destinados a agentes da ditadura, que faziam cortes e classificações, Miqueias ficou conhecido, em 1984, por comemorar o fim do regime militar com um gesto de coração na rampa do Congresso. A partir desse momento, ganhou maior visibilidade entre os movimentos sociais e passou a ser convidado por sindicatos. Atualmente, ele mantém o Mimo, seu próprio espaço teatral localizado na comunidade periférica 26 de setembro, criado para acolher artistas ambulantes da capital.

 

Ritmos regionais criam identidade musical para Brasília

 

A tradução artística de Brasília também ocorre por meio da música, como demonstra o grupo “Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro”, fundado pelo pernambucano Tico Magalhães. Inspirado pelo Cerrado e pela história da cidade, Magalhães desenvolveu o ritmo denominado samba pisado, com o intuito de criar uma tradição própria para a capital inventada.

 

Segundo o criador do samba pisado, a proposta era oferecer à cidade um ritmo novo, com mitologia, personagens e festividades próprios. “Achei que precisava criar algo que fosse novo também em relação a um pulso, um coração, uma batida própria. A gente chama de samba pisado e, a partir daí, a gente começa a tocá-lo”, afirma Magalhães.

 

A sonoridade do samba pisado combina influências do cavalo marinho, do maracatu nação, de baque solto, de baque virado e de outros ritmos. Tico Magalhães enfatiza que Brasília foi construída em um território marcado pelo encontro de diferentes povos indígenas, o que contribui para a riqueza de memórias e encantamentos locais. Ele avalia que a cidade é fruto de um sonho coletivo, pensada e planejada para reunir pessoas de origens diversas.

 

“Quando você junta gente de muito lugar, a cidade começa a apresentar suas próprias tradições. O Seu Estrelo carrega a junção de tanta gente. A cidade inventa a gente e a gente inventa a cidade”.


 

Arquitetura inspira moda na capital federal

 

A arquitetura de Brasília também motiva criações inovadoras no universo da moda. O casal de estilistas Mackenzo, de 27 anos, natural de Samambaia, e Felipe Manzoli, de 29 anos, natural de Planaltina, ambos provenientes de regiões administrativas periféricas, transformam elementos arquitetônicos da cidade em peças de vestuário.

 

Felipe aprendeu a costurar aos dez anos com sua avó, enquanto Mackenzo, que também possui experiência como músico, começou a desenhar croquis inspirados nas paisagens que observava nos trajetos de ônibus. Mackenzo ressalta que tias baianas de sua família participaram da construção da cidade ao lado de Juscelino Kubitschek, o que reforça sua conexão afetiva com a arquitetura local.

 

Segundo o estilista, a confecção de uma peça de roupa exige conhecimentos similares aos da arquitetura, considerando terrenos retos ou curvos, onde o corpo funciona como base para a criação. Mackenzo observa que Brasília não se resume à arquitetura, mas possui um caráter quase mítico. Ele e Felipe consideram que suas criações homenageiam as famílias que ajudaram a erguer a cidade e transmitem a grandiosidade de um sonho construído a partir da realidade desafiadora enfrentada pelos pioneiros.

 

As peças do casal evocam símbolos da democracia, centros de decisões políticas, espaços de protestos e manifestações culturais. De acordo com eles, a meticulosidade e o dramatismo das criações estão presentes em cada coleção, sempre buscando transformar referências arquitetônicas em moda.

 

Influências da arquitetura na moda autoral

 

A estilista Nara Resende, de 54 anos, também arquiteta, destaca que as formas simples e a geometria sempre influenciaram seu processo criativo. Estabelecida em Brasília, ela reconhece que o repertório de inspiração foi construído a partir desses elementos fundamentais.

 

Nara observa que a capital respira arte e que a presença da natureza cria um contraste marcante com o brutalismo predominante nas edificações. Para ela, a inspiração se manifesta nas ruas, locais onde a vida cotidiana e a circulação de pessoas impulsionam novas ideias.

 

Cores e alegria traduzidas em artes visuais

 

Isabella Stephan, artista visual de 41 anos, produz telas e estampas baseadas nas cores e na atmosfera de Brasília, buscando retratar aquilo que considera a “alma da cidade”. Suas obras transitam entre o figurativo e o abstrato, valorizando a alegria como tema central.

 

No início, Isabella se dedicava exclusivamente à produção de quadros, posteriormente comercializados. A partir disso, passou a transferir as pinturas para o vestuário. Ela aponta que Brasília é uma cidade marcada pelo predomínio do branco e do concreto em sua arquitetura, repleta de linhas e formas definidas. Sua produção artística busca representar o colorido e a vivacidade do cotidiano dos habitantes da capital, expressando o movimento e a alegria típicos do local.

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