LogoJoão Pessoa Notícias

Anvisa e especialistas alertam para perigos do uso indevido de canetas emagrecedoras

Mercado ilegal e manipulação sem autorização geram riscos sérios, apesar dos benefícios no tratamento de obesidade e diabetes.

26/04/2026 às 13:38
Por: Redação

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) está em processo de discussão de uma proposta de instrução normativa focada nos requisitos técnicos e procedimentos para os medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1. Esses fármacos, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, têm tido seu uso ampliado e, com isso, o mercado ilegal e o consumo indiscriminado também cresceram, mesmo sendo produtos que exigem prescrição médica para aquisição.

 

Entre os princípios ativos dessas canetas estão a semaglutida, a tirzepatida e a liraglutida. Diante dos perigos iminentes à saúde pública, a Anvisa tem intensificado suas ações para combater o comércio não autorizado, que inclui a venda de versões manipuladas sem a devida permissão. A agência também estabeleceu grupos de trabalho com o objetivo de fortalecer sua atuação no controle sanitário e garantir a segurança dos pacientes.

 

A preocupação com o uso inadequado desses medicamentos levou à assinatura de uma carta de intenção este mês pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), Conselho Federal de Odontologia (CFO) e Conselho Federal de Farmácia (CFF), em colaboração com a Anvisa. O propósito dessa iniciativa é promover o uso consciente e seguro das canetas emagrecedoras, visando a prevenção de riscos sanitários decorrentes de produtos e práticas irregulares, e a proteção da saúde da população brasileira.

 

A Anvisa e os conselhos propõem uma atuação conjunta baseada em troca de informações, no alinhamento técnico e em ações educativas.


 

Em entrevista concedida à Agência Brasil, Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem), ressaltou que, apesar de as canetas emagrecedoras representarem um avanço significativo no tratamento da obesidade e do diabetes, o seu uso sem controle levanta grandes preocupações.

 

São medicamentos muito bons, eficazes, potentes, que abriram realmente um grande horizonte para o tratamento, sobretudo para pessoas que vivem com obesidade. São medicamentos que revolucionaram sob essa perspectiva. Tudo o que a gente já teve pra tratar obesidade tinha resultado menos potente, menos eficaz e eu diria até menos seguro.


 

Para quem vive com uma doença que é crônica, ter a promessa, a expectativa, a esperança de um tratamento, a longo prazo que seja, mas que funcione abriu um horizonte. Esses medicamentos são importantes, ajudam muito não apenas na perda de peso e no controle da glicose, mas, sobretudo, para diminuir o risco cardiovascular.


 

Dornelas mencionou um levantamento recente da própria Anvisa que indicou uma disparidade entre a importação de insumos farmacêuticos para a manipulação das canetas emagrecedoras e a demanda real do mercado nacional. Conforme os dados, somente no segundo semestre de 2025, mais de 100 quilos de insumos foram importados, quantidade suficiente para produzir aproximadamente 20 milhões de doses. Além disso, a agência apreendeu 1,3 milhão de medicamentos que apresentavam algum tipo de ilegalidade ou irregularidade, seja no transporte ou no armazenamento.

 

Isso é estarrecedor. É assustador. A Sbem já vem alertando há muito tempo sobre isso. Para que as pessoas não consumam medicamentos de fontes que não são legais, medicamentos que não são registrados. Isso é altamente preocupante. Além disso, ter uma medicação que é aprovada para duas doenças crônicas, diabetes e obesidade, e as pessoas usarem de maneira indiscriminada realmente é condenatório.


 

Restrições à manipulação

 

O presidente da Sbem destacou seu apoio e o de outras entidades à determinação da Anvisa, em vigor desde junho do ano passado, para que farmácias e drogarias retenham as receitas de canetas emagrecedoras. Ele afirmou que o "consumo desenfreado" se origina, em grande parte, do mercado paralelo.

 

Hoje, diante desse boom, desse exagero que estamos vendo, talvez valesse a pena a Anvisa bloquear por três meses, por seis meses ou até por um ano qualquer manipulação de qualquer uma dessas drogas injetáveis para o tratamento da obesidade.


 

Não se tem estrutura, na agência, suficiente para fiscalizar e fazer tudo isso com um volume de 20 milhões de doses. Então, num ponto crítico como esse, eu defenderia o bloqueio da manipulação, nem que seja por um período transitório, até que se tenha outras medidas mais cabíveis pra isso.


 

Benefícios e Riscos

 

Ao discorrer sobre os benefícios desses medicamentos para pacientes com obesidade e diabetes, o especialista explicou que eles agem por meio de três mecanismos principais: auxiliam no controle da glicose; retardam o esvaziamento do estômago, promovendo uma sensação de saciedade mais prolongada; e atuam no cérebro, diminuindo o apetite. Essa combinação resulta em uma menor ingestão de alimentos e, por meio de processos fisiológicos e interação com outros hormônios, leva a uma perda de peso considerável. A semaglutida, por exemplo, pode resultar em uma perda média de 15% do peso corporal, enquanto a tirzepatida pode atingir de 22% a 25%, variando conforme o indivíduo, a dose, o acompanhamento profissional e a adesão a mudanças no estilo de vida e na alimentação.

 

Dornelas enfatizou que todos os medicamentos podem causar efeitos colaterais e que, para as canetas emagrecedoras, os mais comuns são náuseas, vômitos e outros sintomas gastrointestinais.

 

Com o uso indiscriminado, comprando de fontes não seguras medicamentos não bem armazenados ou transportados, esses riscos aumentam muito.


 

A Anvisa já registrou efeitos colaterais mais graves, como a pancreatite. O médico explicou que a pancreatite é uma doença infelizmente comum no Brasil, com cerca de 40 mil internações anuais, geralmente causada por consumo excessivo de álcool ou cálculos na vesícula. No contexto das canetas emagrecedoras, o retardo do esvaziamento gástrico pode levar à estagnação do líquido biliar na vesícula, o que pode facilitar a formação de cálculos e, consequentemente, aumentar o risco de pancreatite para algumas pessoas, sendo este o maior risco atualmente associado ao uso do medicamento.

 

Esses medicamentos, por si só, quando se faz o retardo do esvaziamento gástrico, eles promovem uma maior parada do líquido que fica dentro da vesícula biliar. E o fato desse líquido, utilizado no processo da digestão, ficar mais tempo parado dentro vesícula pode facilitar a formação de cálculos. Isso poderia aumentar o risco, para algumas pessoas, de pancreatite. Esse é o maior risco hoje.


 

Quatro Pilares da Segurança

 

O presidente da Sbem elencou os quatro pilares essenciais para a segurança e responsabilidade no uso de medicamentos:

  • Utilizar um produtor seguro e legal, com registro no Brasil;
  • Ter a prescrição de um médico com registro e que faça o acompanhamento adequado, desde o diagnóstico;
  • Saber quem está vendendo, preferencialmente farmácias e drogarias que garantam uma compra segura;
  • Usar doses corretas, seguindo a orientação médica, e nunca adquirir produtos em mercados paralelos.

 

Ele esclareceu que a ocorrência de efeitos colaterais não é uma regra. Náuseas, por exemplo, podem afetar entre 30% e 40% dos usuários, mas a ausência de sintomas não indica ineficácia do tratamento, pois 60% a 70% das pessoas não sentem nada. Contudo, náuseas intensas, vômitos e, principalmente, dor abdominal forte e persistente, são sinais de alerta. Em caso de dor significativa na parte superior do abdômen, deve-se considerar a possibilidade, ainda que rara, de pancreatite, sendo a dor o sintoma mais preocupante.

 

Mas náuseas mais intensas, vômitos e, principalmente, dor abdominal importante que não melhora – a dor é o sinal de alerta. Se há dor importante na parte superior do abdômen, temos que pensar na possibilidade, ainda que rara, de uma pancreatite. A dor é o mais preocupante.


© Copyright 2025 - João Pessoa Notícias - Todos os direitos reservados