LogoJoão Pessoa Notícias

Série indígena retrata identidade Suruí e estreia na TV Brasil

Produção acompanha o povo Paiter Suruí e lidera investimento público inédito em audiovisual

22/04/2026 às 21:07
Por: Redação

A série documental Gente de Verdade, protagonizada por indígenas, foi selecionada na chamada pública Seleção TV Brasil e passa a integrar o conjunto de produções audiovisuais apoiadas pela Empresa Brasil de Comunicação com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual.

 

O projeto acompanha o cotidiano e os esforços de preservação de memória e identidade do povo Paiter Suruí, localizado na Terra Indígena Sete de Setembro, divisa dos estados de Rondônia e Mato Grosso, na região amazônica. A comunidade, que teve o primeiro contato com não indígenas há pouco mais de cinco décadas, vem enfrentando profundas mudanças desde então, como a substituição de práticas tradicionais por igrejas, a diminuição de rituais e o esquecimento gradual da língua original Tupi Mondé entre as novas gerações.

 

O conjunto de produções aprovado pela Seleção TV Brasil soma trinta e nove projetos, que serão contratados por valores totais de cento e nove milhões, oitocentos e oitenta e nove mil, duzentos e vinte e quatro reais e setenta e oito centavos, valor considerado o maior já investido pelo Estado brasileiro para conteúdos voltados à televisão pública. A iniciativa faz parte do Programa de Apoio ao Desenvolvimento do Audiovisual Brasileiro, vinculado ao Ministério da Cultura e à Agência Nacional do Cinema.

 

Histórias de três gerações

 

Dentro da categoria Sociedade e Cultura, que contempla outras sete produções, Gente de Verdade se destaca ao narrar a trajetória de quatro protagonistas indígenas de três diferentes gerações: Ubiratan, Agamenon, Celesty e Kennedy. Suas vivências refletem o desafio de manter a identidade Suruí diante de influências externas, como o avanço das igrejas, a vida nas cidades e o impacto das tecnologias. Ao longo dos oito episódios, cada um com vinte e seis minutos, a série aborda temas como ancestralidade, pertencimento e a convivência entre práticas tradicionais e elementos da modernidade.

 

O roteiro da obra foi elaborado por Natália Tupi, cineasta e fotógrafa indígena, e a direção ficou a cargo de Ubiratan Suruí, pertencente ao próprio povo retratado. A narrativa é impulsionada pela descoberta de um acervo visual reunido por um fotógrafo alemão, que registrou o primeiro contato da comunidade com não indígenas, nos anos 1970. Essas imagens são o ponto de partida para discussões sobre espiritualidade, memória e identidade, especialmente sobre a possibilidade de resgatá-las sem afrontar crenças religiosas e costumes que proíbem, inclusive, a menção aos falecidos.

 

Produção conduzida por indígenas

 

De acordo com o diretor Ubiratan Suruí, a autenticidade e o protagonismo são garantidos pelo fato de toda a produção estar sob a responsabilidade dos próprios indígenas. Ele ressalta que o diferencial está em serem os próprios membros da comunidade a contar suas histórias, o que potencializa a autonomia e evidencia a diversidade existente entre os povos originários.

 

“Gente de Verdade nasce do nosso próprio olhar. Por muito tempo, as histórias sobre os povos indígenas foram contadas por outros, de fora. Aqui, não. Somos nós que contamos. Quando a gente coloca nossas próprias narrativas no centro, a gente fortalece nossa autonomia, nossa identidade e mostra a diversidade que existe entre os nossos povos. São histórias reais, de agora, longe dos estereótipos. A gente se apresenta como realmente é: povos vivos, com voz, com pensamento, com futuro — não como personagens do passado.”, ressalta.


 

O diretor também destaca a importância da exibição da obra em uma emissora pública de alcance nacional, como a TV Brasil, para ampliar o acesso às histórias indígenas e estimular reconhecimento, diálogo e respeito.

 

“Ver uma obra indígena sendo exibida na TV Brasil é um avanço muito importante. Por ser um canal público e de alcance nacional, abre espaço para que mais pessoas conheçam nossas histórias. Isso ajuda a criar diálogo, respeito e reconhecimento. Quando a gente ocupa esse espaço, a gente quebra a invisibilidade e faz com que o Brasil escute, de verdade, as vozes dos povos originários”, complementa Suruí.


 

Valorização de narrativas autênticas

 

A presidente da Empresa Brasil de Comunicação, Antonia Pellegrino, responsável pela coordenação da Seleção TV Brasil durante sua gestão como diretora de Conteúdo e Programação, afirmou que o projeto poderia competir em qualquer edital, mas os realizadores optaram por inscrevê-lo para exibição em televisão pública.

 

“Esse gesto reforça a relevância da comunicação pública para dar visibilidade a vozes historicamente silenciadas. É um projeto potente que posiciona no centro histórias que por muito tempo foram invisibilizadas e que dá protagonismo a quem vive essas experiências. A série amplia o olhar sobre os povos indígenas com sensibilidade e profundidade, a partir da força do audiovisual em provocar reflexão e ampliar a compreensão sobre diferentes realidades”, comenta.


 

Exposição fotográfica complementar

 

No ano anterior, o Instituto Moreira Salles realizou, na cidade de São Paulo, uma mostra intitulada Paiter Suruí, Gente de Verdade, composta por oitocentas imagens captadas desde a década de 1970. Esses registros marcam a chegada das câmeras à Terra Indígena Sete de Setembro e compõem um panorama detalhado das histórias, tradições, relações afetivas, cotidiano e resistência do povo Suruí. O conteúdo da exposição está disponível para consulta no site do Instituto Moreira Salles.

© Copyright 2025 - João Pessoa Notícias - Todos os direitos reservados