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Senegal amplia presença internacional em fórum sobre segurança e paz

Dacar recebe líderes de 38 países e reforça cooperação entre Senegal e Brasil em fórum internacional.

21/04/2026 às 21:35
Por: Redação

A cidade de Dacar, capital do Senegal, localizada a cerca de 2.900 quilômetros do Brasil e considerada o ponto do continente africano mais próximo das Américas, foi sede do 10º Fórum Internacional de Dacar sobre Paz e Segurança na África, realizado ao longo de dois dias e encerrado em 21 de abril de 2026. A região metropolitana da cidade abriga uma população de quase quatro milhões de habitantes.

 

O evento contou com a participação de chefes de Estado e representantes de 38 países, dos quais 18 pertencem ao continente africano. Além disso, estiveram presentes membros de dez organismos internacionais, entre eles a Organização das Nações Unidas (ONU) e a União Europeia (UE). O Brasil esteve representado pela embaixadora Daniella Xavier, responsável pela missão diplomática no Senegal.

 

Durante a abertura oficial do encontro, o presidente senegalês Bassirou Diomaye Faye destacou a capital do país como um centro estratégico para o diálogo tanto africano quanto internacional. Faye afirmou que Dacar serve como "um espaço de reflexão e troca sobre caminhos para desenvolver soluções endógenas [internas] para os desafios de segurança do continente".

 

O fórum foi palco para análise de desafios, discussões temáticas e formulação de propostas voltadas ao continente africano. O Senegal utilizou o evento como instrumento de fortalecimento de seu protagonismo regional, sendo reconhecido como um dos países de maior estabilidade na África. Além da liderança na região, o Senegal, com aproximadamente 19 milhões de habitantes, busca ampliar sua influência internacional em colaboração com outras regiões, em especial o chamado Sul Global, no qual o Brasil também se destaca. Especialistas em relações internacionais ouvidos durante o evento apontaram o interesse comum dos dois países em atuar como referências nesse grupo de nações em desenvolvimento.

 

Estabilidade política e desafios de segurança

O chefe do Escritório da ONU para a África Ocidental e Sahel, o diplomata Leonardo Santos Simão, explicou que o Senegal possui um histórico de promoção da paz e estabilidade, não tendo registrado golpes de Estado em sua trajetória política. Simão observou que, atualmente, a África atravessa momentos de instabilidade, resultado de conflitos internos, regionais, terrorismo e crime organizado.

 

O diplomata moçambicano ressalta que a região do Sahel, faixa que liga o deserto do Saara às savanas ao sul do continente, é considerada foco do terrorismo internacional, enfrentando ameaças de grupos jihadistas, como Al-Qaeda e Estado Islâmico. Conforme o Índice de Terrorismo Global de 2026, mais da metade dos óbitos causados por atos terroristas em 2025 ocorreu no Sahel, especialmente nos países de Mali, Burkina Faso e Níger. Os demais países da área incluem Senegal, Gâmbia, Mauritânia, Guiné, Chade, Camarões e Nigéria.

 

Segundo Simão, "Senegal, através deste diálogo regular, oferece justamente esse espaço de troca de ideias, de troca de opiniões sobre como enfrentar, na prática, esses desafios do nosso tempo". O diplomata destacou a presença de representantes de países não africanos no fórum.

 

Atuação no Sul Global e busca por autonomia

O representante da ONU salientou que o Senegal integra a articulação internacional do Sul Global, grupo de países em desenvolvimento que compartilham desafios sociais, e cuja coesão é defendida pelo Brasil. Simão explicou que esse bloco atua tanto na busca por soluções para problemas comuns quanto no diálogo com as nações do Norte Global, consideradas mais ricas. "Este Sul está cada vez mais unido", declarou. "Senegal é parte desse esforço também. Está no mesmo diapasão que o Brasil e outros países do Sul no trazer desta voz do Sul Global para que sejam encontradas soluções para os problemas da pobreza e da exclusão".

 

Simão também destacou que a afirmação da soberania africana é cada vez mais essencial. Para ele, existe a necessidade de revisão das relações históricas entre os países africanos e as nações desenvolvidas do Norte. Entre as delegações internacionais presentes no fórum, destacam-se representantes de países europeus com histórico colonial na África, como Alemanha, Espanha, Portugal e França, esta última colonizadora do Senegal até 1960.

 

Estratégias de influência internacional

Carlos Lucas Mamboza, professor moçambicano especialista em Estudos Estratégicos, Segurança e Defesa, interpretou o fórum como uma ferramenta clara de soft power. No contexto diplomático, soft power refere-se à capacidade de influenciar a política internacional por meio de atração e persuasão, evitando o uso de força militar.

 

Segundo Mamboza, a realização do evento visa projetar uma imagem de Estado estável, com instituições sólidas e apto a mediar conflitos no Sahel e no continente africano em geral. Ele, que também leciona África nas Relações Internacionais na Universidade Federal Fluminense (UFF), explicou que o tema do fórum em 2026 foi "África enfrenta os desafios da estabilidade, integração e soberania: Quais soluções sustentáveis?". Ele considera que essa escolha reflete o dilema enfrentado pelos Estados africanos: equilibrar a estabilidade interna, promover a integração regional e preservar a soberania diante de um cenário internacional marcado pela competição entre potências como China, Rússia e Estados Unidos.

 

Mamboza destacou que o fórum abordou também temas como mudanças climáticas, pandemias, criminalidade transnacional, cibersegurança e inovações tecnológicas. Para o professor, esse movimento indica a intenção do continente africano de se posicionar de maneira autônoma na definição de suas prioridades estratégicas.

 

Laços com América do Sul e reformas globais

Carlos Lucas Mamboza apontou ainda que o Senegal mantém uma fase diplomática de aproximação com a América do Sul, especialmente com o Brasil. O país integra a Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas), um grupo formado por mais de 20 países, majoritariamente africanos, cujo objetivo é garantir que o Atlântico Sul permaneça livre de conflitos armados e disputas geopolíticas. Recentemente, o Brasil assumiu a liderança desse grupo em evento realizado no Rio de Janeiro.

 

O professor classificou o Senegal como um elo estratégico entre a África Ocidental e o Atlântico Sul, ressaltando a conexão com interesses brasileiros. Segundo ele, essa relação representa uma cooperação caracterizada pelo Sul-Sul. Mamboza também mencionou o alinhamento dos países em relação à defesa de reformas na governança global, como a ampliação do Conselho de Segurança da ONU. Atualmente, apenas cinco nações têm assento permanente e direito a veto no conselho – Rússia, Estados Unidos, China, Reino Unido e França –, sem representantes da América do Sul ou África. Entre as funções do conselho estão a aplicação de sanções internacionais e a autorização para intervenções militares.

 

Reconhecimento dos Estados Unidos e interesses minerais

O papel de destaque buscado pelo Senegal foi reconhecido por representantes dos Estados Unidos que participaram do evento. O subsecretário adjunto do Departamento de Estado norte-americano, Richard Michaels, afirmou:

 

“A liderança do Senegal em questões de segurança regional demonstra o impacto transformador que os países africanos podem alcançar quando traçam seu próprio caminho rumo ao sucesso”.

 

Michaels acrescentou que os Estados Unidos apoiam uma nova era de liderança africana, com países nacionais e regionais assumindo a dianteira no enfrentamento dos desafios econômicos, políticos e de segurança. O diplomata explicou ainda que o relacionamento dos Estados Unidos com os parceiros africanos está passando por uma redefinição fundamental, agora baseada em comércio de benefícios mútuos, em vez de relações de dependência e auxílio.

 

O representante do governo norte-americano também manifestou interesse em participar da cadeia produtiva dos chamados minerais críticos, considerados essenciais para tecnologias modernas, defesa e transição energética. Michaels afirmou que "África é o epicentro da corrida global por minerais críticos". De acordo com ele, os Estados Unidos estão colaborando com parceiros africanos para criar cadeias de suprimentos seguras, transparentes e viáveis comercialmente, a fim de assegurar que as nações africanas obtenham mais valor a partir dos próprios recursos.

 

* O repórter participou do fórum a convite do Ministério da Integração Africana, Negócios Estrangeiros e Senegaleses no Estrangeiro.

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