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Redução da jornada 6x1 pode ampliar acesso das mulheres ao emprego

Ministra das Mulheres defende que dois dias de descanso por semana favorecem igualdade no trabalho

01/05/2026 às 21:47
Por: Redação

O debate em torno da possível extinção do regime de trabalho com apenas um dia de folga semanal, conhecido como escala 6x1, ganhou destaque nacional diante da tramitação no Congresso Nacional de propostas que buscam alterar a legislação trabalhista e garantir dois dias de descanso remunerado por semana, sem redução salarial. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, afirma que essa mudança representa uma demanda contemporânea e tende a favorecer especialmente as mulheres no mercado de trabalho.

 

Durante evento realizado na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio de Janeiro, Márcia Lopes compartilhou sua análise sobre os efeitos da alteração na jornada semanal. Ela destacou que, ao permitir um tempo maior de descanso, as mulheres poderão investir mais em saúde, fortalecer laços familiares e comunitários, além de reduzir a sobrecarga causada pelas múltiplas jornadas às quais são historicamente submetidas.

 

“Elas vão cuidar melhor da saúde, das relações familiares, territoriais. Eu não tenho dúvida que é uma exigência do nosso tempo o fim da escala 6x1”, disse.


 

O governo federal propôs, por meio do Projeto de Lei 1838/2026, a redução do limite da jornada semanal de 44 para 40 horas, mantendo dois dias de folga remunerada e sem impacto no salário dos trabalhadores. O pedido de regime de urgência para a análise da proposta aguarda despacho do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, para que o texto avance. Paralelamente, outras duas Propostas de Emenda à Constituição (PEC 221/19 e PEC 8/25) tramitam na Câmara sobre o mesmo tema, e foi criada recentemente uma comissão especial para avaliar as propostas.

 

Segundo a ministra, a escala 6x1 prejudica em especial as mulheres, que acumulam responsabilidades profissionais, familiares e domésticas, em virtude de padrões culturais históricos. Ela explica que, além do trabalho formal, as mulheres dedicam parte significativa do tempo a tarefas não remuneradas, o que contribui para a sensação de esgotamento e limita oportunidades de qualificação e lazer.

 

“Às mulheres, historicamente, foi imputado a elas, dupla, tripla jornadas de trabalho. A elas sempre coube, além do trabalho remunerado, uma grande parte do seu tempo com trabalho não remunerado”, explica.


 

“Quando elas terminam uma etapa do dia de trabalho, apesar do cansaço, elas dão início a outras etapas, seja estudando, cuidando das suas casas, dos filhos, dos afazeres”, completa.


 

Márcia Lopes defende que a flexibilização do regime de trabalho, aliada à luta por igualdade salarial, é fundamental para ampliar as possibilidades de inserção feminina no mercado de trabalho, especialmente para mulheres periféricas e negras, promovendo a redução das desigualdades de gênero no Brasil.

 

“Ao alcançar o fim da escala 6x1 e trabalhar pela igualdade salarial, as mulheres vão tendo muito mais chance de acessar o trabalho e de conquistar espaços e condições de trabalho melhores”, diz ela, enfatizando entre as beneficiadas as mulheres periféricas e negras.


 

Desigualdades salariais persistem

 

Dados do 5º Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, apontam que mulheres brasileiras recebem, em média, 21,3% a menos que os homens no setor privado de empresas com 100 ou mais empregados. Isso significa que, para cada mil reais recebidos por um homem, uma mulher recebe 787 reais pelo mesmo trabalho.

 

A legislação vigente, por meio da Lei nº 14.611 de julho de 2023, estabelece que empresas com cem ou mais funcionários devem adotar medidas para garantir a equiparação salarial entre homens e mulheres em funções idênticas, incluindo a obrigatoriedade de divulgar publicamente os salários praticados.

 

Consequências para empresas e economia

 

Para a ministra das Mulheres, o aumento do tempo de descanso semanal pode trazer benefícios não apenas para os trabalhadores, mas também para as empresas, como a redução do absenteísmo, que envolve faltas, atrasos e saídas antecipadas. Ela também aponta possíveis efeitos positivos para a economia do país, ao permitir que os trabalhadores desfrutem de mais tempo livre para atividades culturais, lazer, alimentação adequada, organização comunitária e até mesmo empreendedorismo.

 

“Traz muito mais dignidade, traz tempo livre que será utilizado para, inclusive, ir ao cinema, visitar museu, poder se alimentar melhor, organizar a sua comunidade, o seu território, de poder empreender”, lista.


 

Análises divergentes sobre impacto econômico

 

Estudos realizados por diferentes entidades buscam mensurar as repercussões da redução da jornada de trabalho sobre o Produto Interno Bruto (PIB) e a inflação. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta prejuízo para a competitividade industrial, com perda estimada de 76 bilhões de reais no PIB e aumento médio de preços de 6,2%. Já a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) calcula que a medida elevaria os custos da folha salarial em 21% e poderia gerar pressão inflacionária, com repasse de preços ao consumidor de até 13%.

 

Em sentido diverso, análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculado ao Ministério do Planejamento e Orçamento, aponta que o impacto de uma eventual redução para 40 horas semanais seria semelhante ao observado durante reajustes do salário mínimo, sugerindo que o mercado de trabalho possui capacidade para absorver tal mudança sem grandes rupturas.

 

Mobilização social pelo fim do 6x1

 

Márcia Lopes, também presidente do Conselho Nacional de Direito da Mulher, relatou que grupos de mulheres têm buscado diálogo direto com os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, a fim de pressionar parlamentares pela aprovação do fim da escala 6x1.

 

“As mulheres são fortes, são mobilizadas e já estão fazendo isso”, disse.


 

“Claro que tem posicionamentos contrários, isso faz parte da democracia, mas eu tenho impressão que, muito em breve, vamos conquistar mais esse direito no Brasil”, conclui.


 

No mesmo evento, o BNDES anunciou a destinação de 80 milhões de reais para projetos voltados ao empreendedorismo feminino e ao fortalecimento do trabalho de cuidado em regiões periféricas. Entre as iniciativas contempladas estão cozinhas comunitárias, lavanderias públicas e cuidadotecas.

 

Tereza Campello, diretora Socioambiental do BNDES, destacou que o fim do regime 6x1 está associado à melhoria na qualidade de vida das mulheres.

 

“A luta para que a gente mude essa situação da escala 6x1 é exatamente ter direito a se cuidar, ter direito ao fim de semana, ao autocuidado”, disse.


 

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