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Itaipu testa energia solar com potencial de igualar geração hidrelétrica

Usina investe em painéis fotovoltaicos, hidrogênio verde, biogás e combustível sustentável de aviação visando diversificar matriz energética

21/04/2026 às 23:01
Por: Redação

O reservatório situado na usina hidrelétrica de Itaipu, localizado na fronteira entre Brasil e Paraguai, na região Sul do território brasileiro, apresenta um perímetro de aproximadamente 1.300 quilômetros quadrados, com extensão total de quase 170 quilômetros, partindo da barragem e alcançando o lado oposto. A largura média do lago é de 7 quilômetros entre as margens direita e esquerda.

 

A área inundada pelo Rio Paraná, responsável pela movimentação das turbinas que possibilitam a geração de até 14 mil megawatts de energia elétrica, também demonstra capacidade para fornecer eletricidade a partir da instalação de painéis solares sobre a superfície do lago. Técnicos brasileiros e paraguaios têm conduzido testes, desde o final do ano anterior, avaliando a viabilidade dessa tecnologia instalada diretamente sobre a lâmina d’água.

 

O projeto experimental envolve a montagem de 1.584 módulos fotovoltaicos em uma área inferior a 10 mil metros quadrados, posicionados a 15 metros da margem em território paraguaio, numa região em que a profundidade do reservatório atinge cerca de 7 metros. A capacidade instalada da planta solar é de 1 megawatt-pico (MWp), valor que representa a potência máxima sob condições ideais de radiação solar. Essa produção energética é destinada exclusivamente ao consumo interno da usina, não sendo comercializada nem conectada ao sistema hidrelétrico principal.

 

No momento, a "ilha solar" de Itaipu cumpre papel de laboratório de pesquisa a serviço do desenvolvimento de futuras aplicações comerciais. Os profissionais do projeto analisam múltiplos fatores, incluindo a interação das placas solares com o ambiente, possíveis efeitos no comportamento de peixes e algas, variações na temperatura da água, influência dos ventos sobre o desempenho dos painéis, estabilidade estrutural dos flutuadores e ancoragem no solo.

 

A proposta de expansão da energia solar depende da revisão do próprio Tratado de Itaipu, firmado em 1973 por Brasil e Paraguai, que permitiu a construção da usina. Em relação ao potencial teórico identificado, o superintendente de Energias Renováveis da Itaipu Binacional, Rogério Meneghetti, declarou:

 

"Se falarmos em um potencial bem teórico, uma área de 10% do reservatório, coberta com placas solares, seria o mesmo que outra usina de Itaipu, em termos de capacidade de geração. Claro que isso não está no planos, pois seria uma área muito grande e depende ainda de muitos estudos, mas mostra o potencial dessa pesquisa".

 

Cálculos iniciais indicam que seriam necessários pelo menos quatro anos de instalação para atingir a produção de energia solar equivalente a 3 mil megawatts, volume equivalente a 20% da capacidade atual da hidrelétrica.

 

O investimento realizado soma 854,5 mil dólares, valor próximo de 4,3 milhões de reais conforme a cotação vigente. A execução das obras foi responsabilidade de um consórcio binacional, composto pela empresa Sunlution, do Brasil, e a Luxacril, do Paraguai, vencedoras do processo licitatório.

 

Novas possibilidades energéticas no complexo de Itaipu

 

Diversificar as fontes de energia tem sido uma estratégia da Itaipu Binacional, que além dos estudos em energia solar, investe em projetos de hidrogênio verde e soluções com baterias. Essas iniciativas têm sede no Itaipu Parquetec, ecossistema de inovação e tecnologia criado em 2003 em Foz do Iguaçu, no Paraná, em parceria com universidades, empresas públicas e privadas. Desde então, mais de 550 doutores e mestres foram formados nesse ambiente multidisciplinar.

 

O Centro Avançado de Tecnologia de Hidrogênio, instalado no local, desenvolve o chamado hidrogênio verde, cuja produção não envolve emissões de gás carbônico, o principal responsável pelo efeito estufa e pelo aquecimento global. O processo empregado na unidade é a eletrólise da água, separando os elementos químicos do composto H₂O com uso de equipamentos automatizados em laboratório.

 

A aplicação do hidrogênio verde é ampla e inclui o fornecimento de insumos para indústrias dos setores siderúrgico, químico, petroquímico, agrícola e alimentício, além do uso como combustível para energia e transporte. Em Itaipu, há uma planta de produção dedicada ao desenvolvimento de projetos-piloto.

 

De acordo com Daniel Cantani, gerente do Centro de Tecnologia de Hidrogênio do Itaipu Parquetec, o papel da unidade é atuar como plataforma tecnológica que apoia pesquisas científicas e iniciativas do setor industrial. Empresas nacionais realizam testes de veículos movidos a hidrogênio, como carretas e ônibus, com validação dos projetos acontecendo no próprio parque tecnológico.

 

Durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, foi apresentado um barco movido a hidrogênio, resultado de pesquisa desenvolvida no Itaipu Parquetec, destinado à coleta seletiva junto às comunidades ribeirinhas daquela região.

 

Outro foco do Itaipu Parquetec é o centro de gestão energética, responsável pelo desenvolvimento de células e protótipos voltados à fabricação, reaproveitamento e armazenamento de baterias, com aplicações especialmente em sistemas estacionários utilizados por empresas e estações fixas que necessitam de reservas energéticas.

 

Soluções com biogás e combustíveis renováveis

 

A geração de biogás na usina de Itaipu é realizada a partir de resíduos orgânicos gerados em restaurantes distribuídos pelas várias áreas do complexo, bem como por materiais apreendidos em operações da Polícia Rodoviária Federal e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, durante fiscalizações nas fronteiras. Esses resíduos, ao invés de serem enviados a aterros, são convertidos em biogás e biometano.

 

No dia 13 de abril, foi reinaugurada a Unidade de Demonstração de Biocombustíveis, situada no complexo da usina e gerida pelo Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), empresa fundada com o objetivo de buscar soluções em combustíveis limpos. Nessa unidade, alimentos de origem ilícita e outros resíduos orgânicos regionais passam por biodigestão em grandes tanques, tornando-se combustível limpo para os veículos que circulam dentro do perímetro de Itaipu, abastecidos por cilindros de gás adaptados.

 

Segundo dados da usina, em quase nove anos de funcionamento, a unidade já processou mais de 720 toneladas de resíduos orgânicos, quantidade suficiente para gerar biometano capaz de impulsionar veículos por 480 mil quilômetros, distância semelhante a doze voltas ao redor da Terra.

 

O local também serve para testes experimentais na obtenção de bio-syncrude, óleo sintético com potencial de ser empregado na produção de SAF, o Combustível Sustentável de Aviação.

 

Daiana Gotardo, diretora técnica do CIBiogás, destaca as tendências do setor:

 

"Eu acredito que nos próximos 10 anos, nós vamos ver muito sobre os combustíveis avançados. Vamos ouvir muito sobre o hidrogênio, sobre o SAF, inclusive por conta da lei de combustíveis futuro, que vem aí com mandato. Biometano e SAF são os assuntos do momento".

 

Essas iniciativas e pesquisas avançam graças à atuação conjunta de Itaipu Binacional e parceiros, com o objetivo de explorar novas alternativas energéticas, diversificar a matriz e atender tanto demandas ambientais quanto industriais.

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